
A CIDADE
É um ramal de tendões nas folhas sem efeito de clorofila,
pernas estáticas e estátuas a observar o carreiro das formigas
obreiras. Impera a república nos galões dos mercados que
a acordam com trombetas de legumes, frutas e peixe frescos
(e a carne vai, pelo carreiro dessedentar a língua com uma bica
tomada à pressa enquanto os olhos voam silenciosos pelas últimas
do dia no rosto dos quiosques). Divaga entre atendimentos, serviços
reuniões com a barriga farta de fast food e vapores de cansaço
de ser sempre a mesma chuva a lavar-lhe a cara. Nesta valsa quotidiana,
adormece às primeiras horas do dia.
Mal toca a corneta do pôr-do-sol, acorda, chega-se ao toucador
para retocar os lábios de néon, acende os candeeiros das artérias
de serviço e voa nos vapores da água e do vinho
abrindo a taça a todas as bocas com dinheiro no bolso.
No alto, a lua debruça-se sobre o rio e espeta-lhe nas veias
mais uma dose de sombra e a metamorfose acontece. É
imune, deusa. Nada trespassa a couraça que lhe veste o corpo
de negro, como se deve vestir toda a cidade que se preze.
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