sexta-feira, 8 de maio de 2009

Três lesmas na garganta e um espirro griposo [1]


A CIDADE


É um ramal de tendões nas folhas sem efeito de clorofila,

pernas estáticas e estátuas a observar o carreiro das formigas

obreiras. Impera a república nos galões dos mercados que

a acordam com trombetas de legumes, frutas e peixe frescos

(e a carne vai, pelo carreiro dessedentar a língua com uma bica

tomada à pressa enquanto os olhos voam silenciosos pelas últimas

do dia no rosto dos quiosques). Divaga entre atendimentos, serviços

reuniões com a barriga farta de fast food e vapores de cansaço

de ser sempre a mesma chuva a lavar-lhe a cara. Nesta valsa quotidiana,

adormece às primeiras horas do dia.

Mal toca a corneta do pôr-do-sol, acorda, chega-se ao toucador

para retocar os lábios de néon, acende os candeeiros das artérias

de serviço e voa nos vapores da água e do vinho

abrindo a taça a todas as bocas com dinheiro no bolso.

No alto, a lua debruça-se sobre o rio e espeta-lhe nas veias

mais uma dose de sombra e a metamorfose acontece. É

imune, deusa. Nada trespassa a couraça que lhe veste o corpo

de negro, como se deve vestir toda a cidade que se preze.

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