1.
Releio vagarosamente teus olhos…
acordam-me
com aquela luz
que o sol não consegue dissipar e,
por serem eles meu acordar,
ouço teus olhos,
vagarosamente,
em cada despertar.
Então,
releio a mensagem de mim mesmo: —
Não mudes,
peço que continues assim,
pois
se há dias em que não leio em teus olhos,
despertei coberto de nuvens.
2.
Houve um tempo em que ia ao teatro.
Comprava bilhete para o mesmo lugar
e assistia aos actos do meu drama.
Era irónico,
escrevera aquela peça
e representava-a
como crítico da minha pena
do mesmo lugar
onde me sentava para vê-la.
«Passou no mundo a estranha ventania
e a morte de tal maneira se entranhou na vida…»1
E eu ali
naquele teatro de fantasia
escutava o vento a subir das lajes
do meu sepulcro ambulante.
Pudessem as cores primárias do mundo
libertar-se do pequeno berlinde
que meus dedos acariciavam
e os sons primários rodopiar como pião
e a vida só necessitar daquele baraço
nas cenas mais chocantes da minha alma…!
JFRÁGUAS — 2009.
1 — Raul Brandão — in Húmus.