segunda-feira, 11 de maio de 2009

Acromania

Sinto um garfo a espetar-me a carne,

prendendo-me às pedras.

De passagem, um corte de faca na respiração menor

e o sangue da pele brota ao mais leve esforço —

mesmo o da voz, por estranho.


Nasci na outra face da rua. Dela, apenas

se lembram as mãos quando afagam,

como quem desliza pelo pêlo dum cão,

a saudade. Mesmo quando os lábios perderam

o sabor do leite que tinha a estrada —

e a casa ficou uma sombra com vermes na garganta.


Receio que a estátua seja para os invisuais

apalparem as feições

tentando identificar o corpo.


Num restaurante de azedos o cavalo come

sem dar conta da descida,

pedra a pedra,

fraga a fraga

ao silêncio total dos dentes.

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