
Sinto um garfo a espetar-me a carne,
prendendo-me às pedras.
De passagem, um corte de faca na respiração menor
e o sangue da pele brota ao mais leve esforço —
mesmo o da voz, por estranho.
Nasci na outra face da rua. Dela, apenas
se lembram as mãos quando afagam,
como quem desliza pelo pêlo dum cão,
a saudade. Mesmo quando os lábios perderam
o sabor do leite que tinha a estrada —
e a casa ficou uma sombra com vermes na garganta.
Receio que a estátua seja para os invisuais
apalparem as feições
tentando identificar o corpo.
Num restaurante de azedos o cavalo come
sem dar conta da descida,
pedra a pedra,
fraga a fraga
ao silêncio total dos dentes.
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