domingo, 20 de novembro de 2011
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
1.
Releio vagarosamente teus olhos…
acordam-me
com aquela luz
que o sol não consegue dissipar e,
por serem eles meu acordar,
ouço teus olhos,
vagarosamente,
em cada despertar.
Então,
releio a mensagem de mim mesmo: —
Não mudes,
peço que continues assim,
pois
se há dias em que não leio em teus olhos,
despertei coberto de nuvens.
2.
Houve um tempo em que ia ao teatro.
Comprava bilhete para o mesmo lugar
e assistia aos actos do meu drama.
Era irónico,
escrevera aquela peça
e representava-a
como crítico da minha pena
do mesmo lugar
onde me sentava para vê-la.
«Passou no mundo a estranha ventania
e a morte de tal maneira se entranhou na vida…»1
E eu ali
naquele teatro de fantasia
escutava o vento a subir das lajes
do meu sepulcro ambulante.
Pudessem as cores primárias do mundo
libertar-se do pequeno berlinde
que meus dedos acariciavam
e os sons primários rodopiar como pião
e a vida só necessitar daquele baraço
nas cenas mais chocantes da minha alma…!
JFRÁGUAS — 2009.
1 — Raul Brandão — in Húmus.
ECOS DO DIÁRIO DUM SEMINARISTA
1.
Gosto daqueles lugares
raramente beijados pelos pés turistas.
Gosto daqueles quadros
que nenhum artista ousou pintar.
Gosto daquelas paisagens
que nenhum fotógrafo ousou captar.
Gosto desse terreno ermo
onde pousa a voz de Deus
todas as vezes que o procuro.
2.
Trazia os pés feridos pela longa caminhada.
Nas mãos, chagas abertas como as de Cristo.
Nos olhos a dor dos rejeitados e os cabelos
em desalinho lembravam a coroa de espinhos.
O corpo não via pão há muitos dias e
vergado estava ao cansaço da viajem
sem horas nem lugar de sono.
Os trapos que o vestiam há muito tinham perdido
seu esplendor.
Não falou, não corou, apenas olhava
pela porta da cozinha.
«Vem!» Sentou-se. Comeu. Lavou-se.
À noite deitou-se numa cama limpa.
Estava em casa.
E ninguém lhe perguntou de onde vinha
nem veio ninguém procurá-lo.
3.
Era um ermo escondido nas entranhas da serra.
Eles o aconchego um do outro nas longas noites
de Inverno. Passavam os dias mirando as faúlhas
da lareira, bebendo neve fervida.
«Que comeis?» Duas batatas e umas couves
extermes num pode de ferro.
Quis que viessem, mas que não.
No curral onde estavam tinham-se um ao outro
para se aquecerem na solidão do Inverno.
Não viram a luz Primavera!
JFráguas — 2009
1.
Escrevo como que olha uma caixa
dividida em caixotins
e soletra cores, uma-a-uma.
Escrevo como quem ouve
o vento a separar pétalas
com seu meio espaço de chumbo.
Escrevo com quem esquece a luz
e vê na sombra
a nudez das letras.
2.
Cada caracter é mulher deitada
em toalha branca,
um pingo de vinho a embriagar
o papel.
Somos todos à mesa
sem garfo nem faca
a desgostar
pedaços de mel.
3.
Curtas são as linhas
onde deito o corpo.
E tu deslizas nos carris
procurando
uma paisagem ilusória!?
Olha-me nos olhos
e verás a profundidade
da maré cheia.
4.
O meu poema é um úbere cheio.
Nele mergulhas os dedos
procurando as natas
que te amanteiguem o pão.
5.
Procuras nas letras com imaginação fértil
a praia aberta ao frenesim do corpo
as costas da ilha a densa florestas
a água dos cocos para a tua sede.
Estás,
sem o saberes,
no centro da queixada dum predador cinzento.


