segunda-feira, 11 de outubro de 2010

1.


Releio vagarosamente teus olhos…

acordam-me

com aquela luz

que o sol não consegue dissipar e,

por serem eles meu acordar,

ouço teus olhos,

vagarosamente,

em cada despertar.

Então,

releio a mensagem de mim mesmo: —

Não mudes,

peço que continues assim,

pois

se há dias em que não leio em teus olhos,

despertei coberto de nuvens.




2.


Houve um tempo em que ia ao teatro.

Comprava bilhete para o mesmo lugar

e assistia aos actos do meu drama.


Era irónico,

escrevera aquela peça

e representava-a

como crítico da minha pena

do mesmo lugar

onde me sentava para vê-la.



«Passou no mundo a estranha ventania
e a morte de tal maneira se entranhou na vida…»1


E eu ali

naquele teatro de fantasia

escutava o vento a subir das lajes

do meu sepulcro ambulante.


Pudessem as cores primárias do mundo

libertar-se do pequeno berlinde

que meus dedos acariciavam

e os sons primários rodopiar como pião

e a vida só necessitar daquele baraço

nas cenas mais chocantes da minha alma…!


JFRÁGUAS — 2009.



1 — Raul Brandão — in Húmus.

ECOS DO DIÁRIO DUM SEMINARISTA


1.

Gosto daqueles lugares

raramente beijados pelos pés turistas.

Gosto daqueles quadros

que nenhum artista ousou pintar.

Gosto daquelas paisagens

que nenhum fotógrafo ousou captar.

Gosto desse terreno ermo

onde pousa a voz de Deus

todas as vezes que o procuro.



2.

Trazia os pés feridos pela longa caminhada.

Nas mãos, chagas abertas como as de Cristo.

Nos olhos a dor dos rejeitados e os cabelos

em desalinho lembravam a coroa de espinhos.

O corpo não via pão há muitos dias e

vergado estava ao cansaço da viajem

sem horas nem lugar de sono.

Os trapos que o vestiam há muito tinham perdido

seu esplendor.

Não falou, não corou, apenas olhava

pela porta da cozinha.

«Vem!» Sentou-se. Comeu. Lavou-se.

À noite deitou-se numa cama limpa.

Estava em casa.

E ninguém lhe perguntou de onde vinha

nem veio ninguém procurá-lo.



3.

Era um ermo escondido nas entranhas da serra.

Eles o aconchego um do outro nas longas noites

de Inverno. Passavam os dias mirando as faúlhas

da lareira, bebendo neve fervida.

«Que comeis?» Duas batatas e umas couves

extermes num pode de ferro.

Quis que viessem, mas que não.

No curral onde estavam tinham-se um ao outro

para se aquecerem na solidão do Inverno.

Não viram a luz Primavera!


JFráguas — 2009

FOTO-GRÁFICA-MENTE



1.


Escrevo como que olha uma caixa

dividida em caixotins

e soletra cores, uma-a-uma.


Escrevo como quem ouve

o vento a separar pétalas

com seu meio espaço de chumbo.


Escrevo com quem esquece a luz

e vê na sombra

a nudez das letras.



2.


Cada caracter é mulher deitada

em toalha branca,

um pingo de vinho a embriagar

o papel.


Somos todos à mesa

sem garfo nem faca

a desgostar

pedaços de mel.



3.


Curtas são as linhas

onde deito o corpo.


E tu deslizas nos carris

procurando

uma paisagem ilusória!?


Olha-me nos olhos

e verás a profundidade

da maré cheia.



4.


O meu poema é um úbere cheio.

Nele mergulhas os dedos

procurando as natas

que te amanteiguem o pão.



5.


Procuras nas letras com imaginação fértil

a praia aberta ao frenesim do corpo

as costas da ilha a densa florestas

a água dos cocos para a tua sede.


Estás,

sem o saberes,

no centro da queixada dum predador cinzento.



JFRÁGUAS - 2009