segunda-feira, 25 de maio de 2009

ÚLTIMAS PALAVRAS [25.V.09]



É tarde

de tarde

e tudo arde.

O coração queima o resto do ar.

A boca tenta saciar a sede

do fogo…

por ser tarde

de tarde,

há-de arder noite fora,

a fonte,

o fogo,

a tarde,

a noite toda.





Eram hastes aparentemente secas,

sem o mais pequeno sinal de vida.


Um pouco de calor e mostram pequenas folhas —

verde escondido — depois flores brancas.


Um nevão passou pelo jardim!…


Ao lado as azálias tapam o verde das folhas

com o colorido das flores. Mas aonde estavam

as folhas as flores e a policromia de todas elas

antes desta sinfonia…


Olho em volta, paus murchos, no Inverno.





Tens os dedos picados pelos espinhos da Rosa que te ofereci
no Domingo, quando saí para ir buscar o pão e passei pelo jardim
em frente ao escritório. Parece que choram.

Tens os ouvidos a zunir mensagens do pâncreas.
As veias furadas. As pernas cansadas, os músculos com cãibras.
Um corpo que pesa um pouco mais aos quarenta.

Ainda não atingiste a idade do silêncio e já ele te povoa.
Ou já atingiste e eu não sei, pois a boca ainda tem fome de tudo.
E tudo são sonhos que ias tirando da prateleira para a luz, oportunamente.

É quase hora de enaltecer os sopros,
aqueles que te encheram e os que não te dei.
A sombra ronda. É agora?!…

Quanto mistério.
Quanto há de insondável na vida.
Não sei se alguém terá consciência de quem verdadeiramente é.
Subjectivamente, penso que me conheço. Mas será que tenho
a plena consciência desse conhecimento, não; julgo que não tenho.
Os cientistas dizem que tudo será reduzido a nada — é a física a falar.
Os filósofos conjecturam, mas tudo parece ficar à porta da Verdade.
E a Fé, será ela a certeza?
A certeza de que depois do Inverno vem sempre a Primavera!…





Olho em volta, paus murchos, no Inverno.


Olhar vago. Por onde anda teu pensar…!

Recordo. E recordando começo a ver a Primavera: — Além!

Não imagino como será, mas estou certo que me irá espantar

quando a vir — quando vir para além da cortina que tapa o mundo.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

ÚLTIMAS PALAVRAS [21.V.09]


Quem me dera ter o dom que o tempo foi queimando

no brasume do verão.

Quem me dera ter o refresco da lareira

da cabana no cimo da serra.

E olhar teus olhos, mulher, com o mesmo perfume

com que me olhava a mãe, às voltas pela cozinha.

Quem me dera não desgastar palavras que pintam

paisagens de minha alma.

Quem me dera ter o dom, perdido, a perdida inocência,

da casa que o tempo foi queimando

no brasume do verão.

NADA MAIS…

Nada mais.

Dou ao instante o mesmo de sempre.

À luz o que é da Luz.

À sombra o que é da Sombra.


É tarde.

O Sol espalha-se no dia.

Um barco sobe a rua. É a hora dos jardins derreterem.

Quantas horas,

quantos jardins,

quantas calorias.

O mar é nu.

Não tenho tempo. É tarde, de tarde

a luz já partiu das folhas



Nada se move.

tudo adormeceu desde o céu à terra.

as hastes vazias falam da ida do verão e das cores. vazias,

as praias do ser, serenam até novos escolhos de maré

virem rasgar-lhe a face, descoloria e manchada.

São os dias da neve em que o calor da lareira leva para devaneios.

e as estações perdidas, os apeadeiros onde não quis parar um pouco do relógio.

São os dias onde as tardes e as manhãs iguais, bocejam de tédio

e a verdade é uma faca de dois gumes: dum lado a serrilha

da oportunidade;

do outro, o gume do constrangimento.

São os dias onde o branco se derrama,

e tudo é negro e não se nota o derrame.


— que mágoa se move dentro dum sorriso forçado,

dum beijo apagado, na ausência dum gesto de afecto.

o tecto rodopia. as mãos erguidas à altura da cabeça.

não, ainda não, as nódoas, as nódoas, as nódoas do tempo.

e um cinzelar por toda a parte. e um cinzelar maior. era um jardim…

ali, olha, um resto de flor.

Não tenho tempo. O tempo que não tenho, tive-o.

Gastei-o no vestígio que diz mais de mim.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Maio


Não sei se te conte uma história ou te dedique um poema.

Um poema sem rosto, uma história com corpo que te entre pelos olhos e faça luz, na sombra.

Algo tenho de fazer, uma coisa ou outra, eis o dilema.

Não.

Não penses assim, esta não é mais uma daquelas circulares que te envio, em momentos especiais, cheias de palavras de circunstância.

Nem pode.

Hoje, não pode mesmo, que o frio cá fora é mesmo para sentir.


Desta vez, não perfuro as entranhas da minha cama.

Afinal, ainda é primavera por mais um tempo

e o inverno já passou com toda a sua melancolia

e preparo-me para enfrentar a praia, amanhã entro de férias

e tudo o resto será premiado com o esquecimento.

Hoje, apenas me incomoda não saber como escrever-te.

E como não quero que certas palavras acordem de onde estão,

não sei que “estória” de embalar te encante,

nem que poema arranque este grito de saudade

de seres Maio apenas uma vez por ano.


No fundo, já não é o transporte público que geme nas paralelas,

nem me assustam os estrondos sinalizadores das mercadorias em passagem,

mas a demora. Sim, passo horas à espera, com o bilhete na mão.

LABIRINTO MONTÊS

1.


Sinto cada vez mais as rugas da serra na luz dos olhos.

Nas mãos, incomodam-me os calos das fragas, seus choros

de solidão vão regando a rasteira vegetação de um todo.

Embrulho-me no seu manto de neblina todas as manhãs

e é quando vejo melhor seus segredos profundos, do alto da

penedia onde só o vento me fala desse corpo de mulher

tão belo quanto estático e me conta histórias de lugares

onde entra mansinho

para não irritar a garganta por onde passa.


— Sabias que há grutas secretas no corpo desta mulher?

— Não.


— Olha, foi sem querer, mas outro dia

perfumava-me entre a carqueja

quando me apareceu um buraquinho

muito discreto e tímido que me convidou a entrar

para que lhe secasse as paredes.

«As minhas memórias são tão húmidas», queixou-se.

«E porque queres que tas seque?», perguntei.

«Ah, é para ver se sou mais feliz sem elas. Sabes, às vezes,

gostaria que fosse o sol a penetrar-me,

a iluminar-me cada entranha,

a secar-me cada lágrima do rosto.

Mas como sou feita de memórias húmidas, se calhar,

é por causa disso que o sol não me visita.

Se fosse seca, quem sabe?»


— E que lhe disseste tu?

— Nada!, passei rentinho a ela e fi-la assobiar

quem sabe se o sol ouviu! E tu que lhe dirias?

— Talvez… — pensei por um instante —

Que quem não tem memórias não existe.

Se não existe, não pode ser visto nem ter nome.


— Pois!… Deixa cá ver,

queres dizer que uma montanha sem nome

é como uma mulher sem memória, certo!


Não respondi, por não saber.


Alguém sabe? Quem me diz?




2.


A rua era assim

rugosa

como calçada romana

batida por muitos cascos

de realeza

de nobreza

de moços

de moças

de lacaios de estrebaria

de prostitutas

de horas vivas e horas mortas

tudo

pisava as pedras

rugosas

do corpo da rua


naquela época

advinda

o desgaste —


foi o vento

com suas múltiplas passagens

quem lhe abriu as fendas

do corpo.




3.


Seus olhos eram cheios de tristeza

estava molhado,

chovera,

apanhara no corpo todos os beijos que

generosamente

lhe deram.

Espamava.

Uma e outra vez tentou desprender-se

da firmeza do corpo.


Quisera poder dar-lhe um abraço que lhe rompesse as defesas,

mas o carro seguiu viagem,

o carro que podia ser o das nossas esperanças, partiu,

deixando a mente alterada e todo o corpo coberto de feridas

abertas.


Às vezes sento-me e ouço sua voz junto com a música do seu tremer

enquanto fala de seus medos.


Lembro-me ainda daquele dia em que a montanha, louca,

estremeceu todos os alicerces dos que habitavam seu corpo.

Foi a primeira vez em que senti e vivi e compreendi que não se podem

prever todos os perigos do oceano.

(Talvez um dia nos possamos perder juntos em algum ponto do mar,

a montanha e eu com um despertar novo em nova manhã

que pode ser clara, ou coberta de nuvens,

mas vai estar lá,

com toda a visibilidade!)


Eis o que importa: ir, ir com ela confiando

que ainda podem existir manhãs de sol

em pleno inverno

sem troca de nomes nem de espaços vivos.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Acromania

Sinto um garfo a espetar-me a carne,

prendendo-me às pedras.

De passagem, um corte de faca na respiração menor

e o sangue da pele brota ao mais leve esforço —

mesmo o da voz, por estranho.


Nasci na outra face da rua. Dela, apenas

se lembram as mãos quando afagam,

como quem desliza pelo pêlo dum cão,

a saudade. Mesmo quando os lábios perderam

o sabor do leite que tinha a estrada —

e a casa ficou uma sombra com vermes na garganta.


Receio que a estátua seja para os invisuais

apalparem as feições

tentando identificar o corpo.


Num restaurante de azedos o cavalo come

sem dar conta da descida,

pedra a pedra,

fraga a fraga

ao silêncio total dos dentes.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Brrrrrrrrrrrrr… 3


Ainda agora foi a lua quem se pôs aos gritos

assustando as nuvem e foi tal chuveiro que até

o jardim bebeu por medida. Pobre jardim de

cabeça vergada e sem coragem de levantá-la

para apanhar com as soldas do céu (se calhar

ficaria com os olhos eternamente abertos,

mas tem necessidade de fechá-los de vez em

quando para vomitar um pouco de cor às pétalas).

Brrrrrrrrrrrrr… 2


As vozes da alcateia ressaltam de palavra em palavra

de verso em verso preenchem folhas de au au au au

como quem segura um biberão com ambas as mãos

(não vá ele fugir, pois tá claro!), e o guizo fica ali

desocupado sem tremeliques que o façam soar

(é hora da mama e acho bem!), apenas fica uma

interrogação: quantas vacas foram necessárias

para encher este momento?


Pois,

sei!

Eu também não.

Brrrrrrrrrrrrr… 1




Aborrecido, interrompo a reunião de gritos

e espreito pela fímbria da saia a primeira luz

pouco me importando que me chamem malcriado

por levantar assim as saias da pequena para mostrar

a cara — sorri com a careta mais feia que consegui

na loja dos trezentos (ou seria bazar chinês?), que

importa isso, afinal, se o carnaval envelhecera mais

três meses? Nem importa que tenha criado o hábito

de usar a mesma máscara nos trezentos e tais carnavais

do ano — pois não?! Ah, quase me esquecia!

Aprendi a comer, sem dentes, nesse dia logo após a reunião.


Vais aborrecer-te agora? — Deixa lá, isso passa.

Olha o sol, olha o mar, não é linda a brisa?

Três lesmas na garganta e um espirro griposo [4]


EU


Sou a cidade

a rua

a casa

e o proxeneta na panorâmica da minha janela.

Três lesmas na garganta e um espirro griposo [3]



A CASA


É uma fachada que o arquitecto sol desenhou

para marcar o compasso da sua passada entre duas

linhas de horizonte. Avista-se quando os primeiros

raios lhe acariciam a pele; estende-se em comprimento

à velocidade da sua erecção; mirra quando deixa de lhe

interessar; apaga-se quando ele vira o olhar noutra direcção.

De vez em quando, entranha-se na humidade dela e deixa-a

mais húmida do que quando entrou sem lhe iluminar nenhuma

parede interior. A casa é a vadia na luz da rua, com proxeneta

próprio de quem não pode fugir; e paga renda

com o descolorir do corpo que o sol lhe consome.

Três lesmas na garganta e um espirro griposo [2]


A RUA


É o pasto de todas as cavalgaduras, machos e fêmeas

deambulam no prado em busca da carne  estreita, que

o véu da noite cozinha para todos os paladares. Como

hospício do dia, esmaga no seu colete de forças

toda a dignidade, soltando a fera dos desejos que

o sol encobre na sua roupagem de ocasião. Engalana-se

com vestes voluptuosas, enfeita o rosto com púrpuras

psicadélicas e enfeitiça os olhos do transeunte com as coxas

nuas e a boca aberta, alucinada, à tesão. A noite é a filha da

lua-cheia, a transbordar odores a sexo, refrescos de álcool

dos mais variados tons e forças, doses de chash e crack,

overdoses de luz com tapete rolante para o paraíso dos cegos.

Três lesmas na garganta e um espirro griposo [1]


A CIDADE


É um ramal de tendões nas folhas sem efeito de clorofila,

pernas estáticas e estátuas a observar o carreiro das formigas

obreiras. Impera a república nos galões dos mercados que

a acordam com trombetas de legumes, frutas e peixe frescos

(e a carne vai, pelo carreiro dessedentar a língua com uma bica

tomada à pressa enquanto os olhos voam silenciosos pelas últimas

do dia no rosto dos quiosques). Divaga entre atendimentos, serviços

reuniões com a barriga farta de fast food e vapores de cansaço

de ser sempre a mesma chuva a lavar-lhe a cara. Nesta valsa quotidiana,

adormece às primeiras horas do dia.

Mal toca a corneta do pôr-do-sol, acorda, chega-se ao toucador

para retocar os lábios de néon, acende os candeeiros das artérias

de serviço e voa nos vapores da água e do vinho

abrindo a taça a todas as bocas com dinheiro no bolso.

No alto, a lua debruça-se sobre o rio e espeta-lhe nas veias

mais uma dose de sombra e a metamorfose acontece. É

imune, deusa. Nada trespassa a couraça que lhe veste o corpo

de negro, como se deve vestir toda a cidade que se preze.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Frustração


Foi duro acordar sem as flores

brincando

pelas dependências do ser.


Um vento as retirou e as levou

contrário.


Do que são, ficou nada.

De mim



Tudo é por causa do tempo;
a meteorologia dos dedos urde
a chuva, o sol, o vento
sob o planalto dos olhos.