
1.
Sinto cada vez mais as rugas da serra na luz dos olhos.
Nas mãos, incomodam-me os calos das fragas, seus choros
de solidão vão regando a rasteira vegetação de um todo.
Embrulho-me no seu manto de neblina todas as manhãs
e é quando vejo melhor seus segredos profundos, do alto da
penedia onde só o vento me fala desse corpo de mulher
tão belo quanto estático e me conta histórias de lugares
onde entra mansinho
para não irritar a garganta por onde passa.
— Sabias que há grutas secretas no corpo desta mulher?
— Não.
— Olha, foi sem querer, mas outro dia
perfumava-me entre a carqueja
quando me apareceu um buraquinho
muito discreto e tímido que me convidou a entrar
para que lhe secasse as paredes.
«As minhas memórias são tão húmidas», queixou-se.
«E porque queres que tas seque?», perguntei.
«Ah, é para ver se sou mais feliz sem elas. Sabes, às vezes,
gostaria que fosse o sol a penetrar-me,
a iluminar-me cada entranha,
a secar-me cada lágrima do rosto.
Mas como sou feita de memórias húmidas, se calhar,
é por causa disso que o sol não me visita.
Se fosse seca, quem sabe?»
— E que lhe disseste tu?
— Nada!, passei rentinho a ela e fi-la assobiar
quem sabe se o sol ouviu! E tu que lhe dirias?
— Talvez… — pensei por um instante —
Que quem não tem memórias não existe.
Se não existe, não pode ser visto nem ter nome.
— Pois!… Deixa cá ver,
queres dizer que uma montanha sem nome
é como uma mulher sem memória, certo!
Não respondi, por não saber.
Alguém sabe? Quem me diz?
2.
A rua era assim
rugosa
como calçada romana
batida por muitos cascos
de realeza
de nobreza
de moços
de moças
de lacaios de estrebaria
de prostitutas
de horas vivas e horas mortas
tudo
pisava as pedras
rugosas
do corpo da rua
naquela época
advinda
o desgaste —
foi o vento
com suas múltiplas passagens
quem lhe abriu as fendas
do corpo.
3.
Seus olhos eram cheios de tristeza
estava molhado,
chovera,
apanhara no corpo todos os beijos que
generosamente
lhe deram.
Espamava.
Uma e outra vez tentou desprender-se
da firmeza do corpo.
Quisera poder dar-lhe um abraço que lhe rompesse as defesas,
mas o carro seguiu viagem,
o carro que podia ser o das nossas esperanças, partiu,
deixando a mente alterada e todo o corpo coberto de feridas
abertas.
Às vezes sento-me e ouço sua voz junto com a música do seu tremer
enquanto fala de seus medos.
Lembro-me ainda daquele dia em que a montanha, louca,
estremeceu todos os alicerces dos que habitavam seu corpo.
Foi a primeira vez em que senti e vivi e compreendi que não se podem
prever todos os perigos do oceano.
(Talvez um dia nos possamos perder juntos em algum ponto do mar,
a montanha e eu com um despertar novo em nova manhã
que pode ser clara, ou coberta de nuvens,
mas vai estar lá,
com toda a visibilidade!)
Eis o que importa: ir, ir com ela confiando
que ainda podem existir manhãs de sol
em pleno inverno
sem troca de nomes nem de espaços vivos.
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