terça-feira, 12 de maio de 2009

LABIRINTO MONTÊS

1.


Sinto cada vez mais as rugas da serra na luz dos olhos.

Nas mãos, incomodam-me os calos das fragas, seus choros

de solidão vão regando a rasteira vegetação de um todo.

Embrulho-me no seu manto de neblina todas as manhãs

e é quando vejo melhor seus segredos profundos, do alto da

penedia onde só o vento me fala desse corpo de mulher

tão belo quanto estático e me conta histórias de lugares

onde entra mansinho

para não irritar a garganta por onde passa.


— Sabias que há grutas secretas no corpo desta mulher?

— Não.


— Olha, foi sem querer, mas outro dia

perfumava-me entre a carqueja

quando me apareceu um buraquinho

muito discreto e tímido que me convidou a entrar

para que lhe secasse as paredes.

«As minhas memórias são tão húmidas», queixou-se.

«E porque queres que tas seque?», perguntei.

«Ah, é para ver se sou mais feliz sem elas. Sabes, às vezes,

gostaria que fosse o sol a penetrar-me,

a iluminar-me cada entranha,

a secar-me cada lágrima do rosto.

Mas como sou feita de memórias húmidas, se calhar,

é por causa disso que o sol não me visita.

Se fosse seca, quem sabe?»


— E que lhe disseste tu?

— Nada!, passei rentinho a ela e fi-la assobiar

quem sabe se o sol ouviu! E tu que lhe dirias?

— Talvez… — pensei por um instante —

Que quem não tem memórias não existe.

Se não existe, não pode ser visto nem ter nome.


— Pois!… Deixa cá ver,

queres dizer que uma montanha sem nome

é como uma mulher sem memória, certo!


Não respondi, por não saber.


Alguém sabe? Quem me diz?




2.


A rua era assim

rugosa

como calçada romana

batida por muitos cascos

de realeza

de nobreza

de moços

de moças

de lacaios de estrebaria

de prostitutas

de horas vivas e horas mortas

tudo

pisava as pedras

rugosas

do corpo da rua


naquela época

advinda

o desgaste —


foi o vento

com suas múltiplas passagens

quem lhe abriu as fendas

do corpo.




3.


Seus olhos eram cheios de tristeza

estava molhado,

chovera,

apanhara no corpo todos os beijos que

generosamente

lhe deram.

Espamava.

Uma e outra vez tentou desprender-se

da firmeza do corpo.


Quisera poder dar-lhe um abraço que lhe rompesse as defesas,

mas o carro seguiu viagem,

o carro que podia ser o das nossas esperanças, partiu,

deixando a mente alterada e todo o corpo coberto de feridas

abertas.


Às vezes sento-me e ouço sua voz junto com a música do seu tremer

enquanto fala de seus medos.


Lembro-me ainda daquele dia em que a montanha, louca,

estremeceu todos os alicerces dos que habitavam seu corpo.

Foi a primeira vez em que senti e vivi e compreendi que não se podem

prever todos os perigos do oceano.

(Talvez um dia nos possamos perder juntos em algum ponto do mar,

a montanha e eu com um despertar novo em nova manhã

que pode ser clara, ou coberta de nuvens,

mas vai estar lá,

com toda a visibilidade!)


Eis o que importa: ir, ir com ela confiando

que ainda podem existir manhãs de sol

em pleno inverno

sem troca de nomes nem de espaços vivos.

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