1.
Escrevo como que olha uma caixa
dividida em caixotins
e soletra cores, uma-a-uma.
Escrevo como quem ouve
o vento a separar pétalas
com seu meio espaço de chumbo.
Escrevo com quem esquece a luz
e vê na sombra
a nudez das letras.
2.
Cada caracter é mulher deitada
em toalha branca,
um pingo de vinho a embriagar
o papel.
Somos todos à mesa
sem garfo nem faca
a desgostar
pedaços de mel.
3.
Curtas são as linhas
onde deito o corpo.
E tu deslizas nos carris
procurando
uma paisagem ilusória!?
Olha-me nos olhos
e verás a profundidade
da maré cheia.
4.
O meu poema é um úbere cheio.
Nele mergulhas os dedos
procurando as natas
que te amanteiguem o pão.
5.
Procuras nas letras com imaginação fértil
a praia aberta ao frenesim do corpo
as costas da ilha a densa florestas
a água dos cocos para a tua sede.
Estás,
sem o saberes,
no centro da queixada dum predador cinzento.
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