segunda-feira, 11 de outubro de 2010

ECOS DO DIÁRIO DUM SEMINARISTA


1.

Gosto daqueles lugares

raramente beijados pelos pés turistas.

Gosto daqueles quadros

que nenhum artista ousou pintar.

Gosto daquelas paisagens

que nenhum fotógrafo ousou captar.

Gosto desse terreno ermo

onde pousa a voz de Deus

todas as vezes que o procuro.



2.

Trazia os pés feridos pela longa caminhada.

Nas mãos, chagas abertas como as de Cristo.

Nos olhos a dor dos rejeitados e os cabelos

em desalinho lembravam a coroa de espinhos.

O corpo não via pão há muitos dias e

vergado estava ao cansaço da viajem

sem horas nem lugar de sono.

Os trapos que o vestiam há muito tinham perdido

seu esplendor.

Não falou, não corou, apenas olhava

pela porta da cozinha.

«Vem!» Sentou-se. Comeu. Lavou-se.

À noite deitou-se numa cama limpa.

Estava em casa.

E ninguém lhe perguntou de onde vinha

nem veio ninguém procurá-lo.



3.

Era um ermo escondido nas entranhas da serra.

Eles o aconchego um do outro nas longas noites

de Inverno. Passavam os dias mirando as faúlhas

da lareira, bebendo neve fervida.

«Que comeis?» Duas batatas e umas couves

extermes num pode de ferro.

Quis que viessem, mas que não.

No curral onde estavam tinham-se um ao outro

para se aquecerem na solidão do Inverno.

Não viram a luz Primavera!


JFráguas — 2009

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