ECOS DO DIÁRIO DUM SEMINARISTA
1.
Gosto daqueles lugares
raramente beijados pelos pés turistas.
Gosto daqueles quadros
que nenhum artista ousou pintar.
Gosto daquelas paisagens
que nenhum fotógrafo ousou captar.
Gosto desse terreno ermo
onde pousa a voz de Deus
todas as vezes que o procuro.
2.
Trazia os pés feridos pela longa caminhada.
Nas mãos, chagas abertas como as de Cristo.
Nos olhos a dor dos rejeitados e os cabelos
em desalinho lembravam a coroa de espinhos.
O corpo não via pão há muitos dias e
vergado estava ao cansaço da viajem
sem horas nem lugar de sono.
Os trapos que o vestiam há muito tinham perdido
seu esplendor.
Não falou, não corou, apenas olhava
pela porta da cozinha.
«Vem!» Sentou-se. Comeu. Lavou-se.
À noite deitou-se numa cama limpa.
Estava em casa.
E ninguém lhe perguntou de onde vinha
nem veio ninguém procurá-lo.
3.
Era um ermo escondido nas entranhas da serra.
Eles o aconchego um do outro nas longas noites
de Inverno. Passavam os dias mirando as faúlhas
da lareira, bebendo neve fervida.
«Que comeis?» Duas batatas e umas couves
extermes num pode de ferro.
Quis que viessem, mas que não.
No curral onde estavam tinham-se um ao outro
para se aquecerem na solidão do Inverno.
Não viram a luz Primavera!
JFráguas — 2009
Sem comentários:
Enviar um comentário