segunda-feira, 11 de outubro de 2010

1.


Releio vagarosamente teus olhos…

acordam-me

com aquela luz

que o sol não consegue dissipar e,

por serem eles meu acordar,

ouço teus olhos,

vagarosamente,

em cada despertar.

Então,

releio a mensagem de mim mesmo: —

Não mudes,

peço que continues assim,

pois

se há dias em que não leio em teus olhos,

despertei coberto de nuvens.




2.


Houve um tempo em que ia ao teatro.

Comprava bilhete para o mesmo lugar

e assistia aos actos do meu drama.


Era irónico,

escrevera aquela peça

e representava-a

como crítico da minha pena

do mesmo lugar

onde me sentava para vê-la.



«Passou no mundo a estranha ventania
e a morte de tal maneira se entranhou na vida…»1


E eu ali

naquele teatro de fantasia

escutava o vento a subir das lajes

do meu sepulcro ambulante.


Pudessem as cores primárias do mundo

libertar-se do pequeno berlinde

que meus dedos acariciavam

e os sons primários rodopiar como pião

e a vida só necessitar daquele baraço

nas cenas mais chocantes da minha alma…!


JFRÁGUAS — 2009.



1 — Raul Brandão — in Húmus.

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